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Em Paris, Haddad defende que acordo UE-Mercosul traz "vantagens políticas" em "mundo bipolar"

31/03/2025 17h55

Em visita a Paris, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu a ratificação do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia e disse que, no contexto de "um mundo bipolar", o tratado "oferece uma alternativa". O ministro brasileiro se reunirá com o colega francês, Eric Lombard, nesta terça-feira (1°)  - mas afirmou que não espera convencer a França a "aceitar um acordo que já está assinado".

Lúcia Müzell, da RFI em Paris

Paris tem sido a principal voz da oposição ao pacto pelo lado europeu, uma rejeição repetida em diversas ocasiões pelo presidente Emmanuel Macron. Para entrar em vigor, o texto ainda precisa ser ratificado pelos Parlamentos dos países dos dois blocos, em um processo ainda não iniciado por nenhum dos signatários.

"Eu não vim aqui pra convencer a França a aceitar", alegou Haddad a jornalistas, ao final de uma conferência no Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po), na noite desta segunda-feira (31). "Eu espero que a França, no seu devido tempo, possa analisar com carinho aquilo que foi construído a muitas mãos. (...) Eu espero conversar com eles sobre as questões globais que estão acontecendo, sobretudo as mais recentes, saber um pouco dos projetos da França de enfrentamento desse novo desafio que está colocado."

Haddad explicou ser favorável ao acordo, assinado pela segunda vez em 6 de dezembro de 2024, "menos por razões econômicas do que razões políticas". Ele disse que "não salta à vista uma grande vantagem econômica para o Mercosul" no texto, mesmo com as salvaguardas inseridas durante as últimas rodadas de negociações, sob impulso brasileiro e alemão.

"Eu acredito que, no médio e longo prazo, nós vamos aprender a coordenar as ações econômicas de maneira proveitosa pra ambas as regiões, mas acredito que o impacto político de curto prazo é muito significativo", argumentou o ministro. "Seria um recado importante pro mundo de que nós vamos resistir a essa visão binária das coisas e nós vamos encontrar caminhos múltiplos de desenvolvimento e de cooperação, que nós não devemos fazer um alinhamento automático como se o outro lado fosse simplesmente um inimigo a ser enfrentado."

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Brasil aposta no multilateralismo

O ministro reiterou que, no caminho para o seu desenvolvimento, o Brasil "teria muita dificuldade de fazer opções" entre seus parceiros comerciais, entre Europa, Estados Unidos ou China. "O meu medo é que a dinâmica internacional da geopolítica force essa situação", explicou Haddad, durante a conferência na prestigiosa instituição francesa. "Quanto mais você apostar no multilateralismo, menos chance de uma volta a um pós-guerra nós vamos ter. A luta por manter o mundo multipolar e por abrir oportunidades de encadeamento da produção, que ofereça mais oportunidades para países que estão à margem do desenvolvimento, é a forma mais correta de agira nessa circunstância de hoje", disse.

O ministro voltou a declarar que, por registrar déficit comercial com os Estados Unidos, o Brasil encontra-se em uma posição privilegiada em meio à guerra comercial iniciada pelo presidente americano, Donald Trump, com seus maiores parceiros. Brasília avalia que pode estar no alvo da nova rodada de "tarifas recíprocas" que Trump prometeu anunciar em 2 de abril, como sobre o etanol.

"Nós que teríamos mais espaço pra crescer no comércio com eles. Eu acredito que qualquer retaliação ao Brasil vai soar injustificável à luz dos dados e à luz das décadas de parceria entre Estados Unidos e Brasil", apontou.

Protecionismo ambiental

O foco da conferência de Haddad na Sciences Po era os 10 anos do Acordo de Paris sobre o Clima e os desafios de "governar na era climática extrema", com a participação de Laurence Tubiana, considerada a arquiteta do tratado climático. Haddad salientou que o aumento do protecionismo no mundo também tem se manifestado sob a desculpa do viés ambiental, com a contabilização das emissões de carbono nas importações, pelos países ricos.

"Você usa isso como um estratagema para não adotar as melhores práticas ambientais", disse. "Isso pode se transformar muito rapidamente e sutilmente numa forma de proteger o seu mercado interno. Se isso for adotado, eles vão jogar fora um instrumento que poderia ser bem utilizado não com fins protecionistas comerciais, mas com fins protecionistas do meio ambiente. Poderia favorecer países que têm condições de gerar energia limpa e produzir bens manufaturados mais verdes: um aço verde, um alumínio ou um combustível verde", enumerou.

A iniciativa brasileira de criação de um imposto mundial sobre as maiores fortunas, aprovada na presidência brasileira do G20, no ano passado, foi lembrada como um mecanismo relevante para os países providenciarem recursos para combater as mudanças do clima. "O 1% dos mais ricos emitem 66% [dos gases de efeito estufa] do que o resto da população, seja na China, na França, nos Estados Unidos e provavelmente no Brasil", ressaltou a diplomata francesa. "Hoje, muita gente pensa que as politicas climáticas são injustas porque ainda não conseguimos entregar a justiça climática."

"O que se gasta com escalada armamentista é, num único país, é três vezes o que nós estamos imaginando que seria necessário para iniciar um trabalho de enfrentamento à crise climática, que é um problema social", respondeu Haddad, ao destacar que um dos principais objetivos da COP30 em Belém, em novembro, será encaminhar mecanismos que garantam US$ 1,3 trilhão de financiamento climático para os países mais pobres até 2035.

Nesta terça, Fernando Haddad será recebido pelo ministro francês das Finanças para uma reunião e um almoço, com a presença de empresários franceses. Os dois ministros evocarão temas prioritários da agenda bilateral, com vistas à visita de Estado que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva realizará à França em junho.

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