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De Capão Redondo para o mundo: Lincoln Péricles leva "quebrada" brasileira a Paris e conecta periferias

31/03/2025 10h06

A obra do cineasta brasileiro Lincoln Péricles LK espelha o vigor e a criatividade da produção cinematográfica brasileira contemporânea. O diretor, roteirista e montador que retrata em seus filmes o bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, está fazendo uma residência artística em Saint-Denis, na região parisiense, depois de ter sido um dos convidados de honra do Festival Regards Satellites. Ele conecta na França seu projeto de "Cinemateca da Quebrada" com a "Cinémathèque idéale des banlieues du monde" (A Cinemateca ideal das periferias do mundo).

Lincoln Péricles LK começou a filmar muito jovem, usando o telefone celular presenteado pelo patrão de sua mãe. Em 15 anos de carreira, produziu filmes, longas e curtas-metragens, que mostram a quebrada onde nasceu e mora, seus moradores e histórias. A obra de LK integra o território periférico do Capão Redondo à produção cinematográfica nacional.

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O diretor já passou por vários festivais de cinema, venceu prêmios no Brasil e agora, pela primeira vez, exibe seu trabalho em Paris. O 3° Festival Regards Satellites, ou Olhares Satélites, de Saint-Denis, periferia de Paris, realizado no início de fevereiro, incluiu em sua programação vários filmes de LK, como "O Cinema Acabou", "Mutirão: o Filme", "Cohab" ou "Filme de Aborto".

LK participou das sessões ao lado de outro cineasta brasileiro, Adirley Queirós, natural de Ceilândia, cidade satélite de Brasília. Os dois "estão na linha de frente de reformulação dos desafios políticos e estéticos da criação cinematográfica do Brasil" escreve Claire Allouche, programadora do festival.

Saudando calorosamente cada parceiro que cita, LK diz que essa experiência em Paris está sendo incrível. "O meu corpo sendo o território que eu habito antes do território físico, eu sempre acho muito incrível poder (me) conectar com pessoas de outras quebradas, de outros lugares do mundo", indica.

 

Embaixador das quebradas

O paulista ressalta que ele e todos os moradores das quebradas sempre têm que "desfazer a imagem de Brasil que as pessoas têm" pelo mundo. Segundo LK, o Brasil em que ele vive "é um outro Brasil, a nossa classe é uma outra classe. Então, a gente se conecta com as pessoas que também são parecidas com nós (sic) e aqui tá sendo a mesma fita".

O cineasta, que já esteve em outros países, como Quênia e Uganda, desenvolvendo projetos, concorda que exerce uma função informal de embaixador dessa produção cinematográfica periférica e contemporânea brasileira. No entanto, para internacionalizar sua carreira, conseguiu superar barreiras - de língua e de acesso a ações afirmativas - e destaca que representa um coletivo.

"Eu sou só mais um dessa grande quebrada que é o Capão Redondo. Só que se eu posso, de alguma forma, trazer mais dos meus junto comigo. De certa forma, eu me vejo como uma pessoa que está apresentando um outro Brasil, um outro painel de vozes, de poéticas que normalmente não têm acesso ou recurso para atingir outros países", pondera.

Depois do Festival Regards Satellites, Lincoln Péricles iniciou uma residência artística em Saint-Denis. Ele realiza na periferia parisiense um filme com a mesma estética, entre ficção e documentário, que caracteriza sua produção. "Como eu disse, o meu corpo é o meu território. Cada lugar que eu acessar, vou conseguir produzir a poesia que eu produzo no quintal de casa ou em qualquer outro lugar do mundo", afirma o cineasta.

LK salienta a necessidade de registrar, documentar as quebradas, e defende o cinema periférico como contraprova do processo de colonização, apagamento e violência do Estado contra o povo. Citando um amigo, ele também define sua estética como "magia".

Os primeiros planos do filme realizado com os moradores e artistas locais serão exibidos na segunda etapa do festival Regards Satellite de Saint Denis, que acontece de 3 a 6 de abril, em parceria com a Mostra de Tiradentes.

 

 

Cinemateca ideal das periferias do mundo

A partir de maio, Lincoln Péricles deve finalizar o filme durante uma nova residência artística, também na periferia parisiense, no Ateliers Médicis do Centro Pompidou, em parceria com o projeto La Cinémathèque idéale des banlieues du monde (A Cinemateca ideal das periferias do mundo), da cineasta francesa Alice Diop. Ao receber esse convite, LK, que desenvolve a ideia de uma Cinemateca da Quebrada no Brasil, ficou encantado.

"Vi esse mesmo nome e falei: 'caramba é um bagulho muito parecido. Tive uma conexão direta com a ideia. A Cinemateca da Quebrada, o nosso projeto de preservação do material audiovisual das periferias do Brasil e do mundo, está muito ligado a ter parcerias estratégicas com todo lugar do mundo. A gente precisa ter raízes", defende.  

LK está em processo de realização de dois outros filmes em coprodução com a França: o documentário sobre "a boxeadora antirracista brasileira" Jucielen Romeu, da periferia de Rio Claro, que disputou em Paris sua segunda Olimpíada, e o documentário-ficção sobre a rapper Kayla B.

O paulista se diz "feliz que o nosso cinema tenha feito parte dessa construção política" de dar maior visibilidade à cultura das periferias. Para ele, "fazer cinema é essencialmente político".

Nos últimos anos, a produção cinematográfica nas quebradas brasileiras aumentou, mas ainda está longe de ser ideal. "O bolo está crescendo. Só que os nossos direitos, o nosso acesso e a continuidade dessas ações afirmativas, estão sempre em perigo", denuncia.

Os filmes de Lincoln Péricles estão disponíveis no canal do cineasta no YouTube.

Clique na foto principal para assistir à entrevista completa de LK.

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