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Chamar tentativa de golpe de 'trapalhona' é equivocado, diz historiador

Historiador Carlos Fico - Divulgação
Historiador Carlos Fico Imagem: Divulgação
do UOL

do UOL, em São Paulo

31/03/2025 05h30Atualizada em 31/03/2025 08h41

Ridicularizar a tentativa de golpe de 8 de janeiro e classificá-la como "trapalhona" é um "equívoco", afirma o professor Carlos Fico, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

O que aconteceu

"Todo golpe fracassado é ridicularizado", disse o historiador, em entrevista ao UOL. Ele está prestes a lançar "Utopia autoritária brasileira: como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje", pela editora Planeta

Segundo o professor, um eventual caráter "trapalhão" não torna a tentativa de golpe "inofensiva".

Quando vistos retrospectivamente, mesmo os golpes vitoriosos se iniciaram com ações ousadas que seriam consideradas inviáveis se tivessem fracassado. Carlos Fico, professor e historiador

Segundo Fico, um exemplo disso é a ação militar que instaurou a ditadura em 1964 - e que completa 61 anos hoje. "Os golpistas seriam tratados como loucos, fanáticos e trapalhões. A versão que prevalece é a dos vitoriosos", diz.

Bolsonaro réu é ação 'pedagógica' para militares golpistas

Carlos Fico afirma que a decisão do STF (Supremo Tribunal Federal) de tornar o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete ex-integrantes do governo réus por tentativa de golpe de Estado é "pedagógica" para as Forças Armadas.

Dentre os indiciados há três generais do Exército: Augusto Heleno, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional; Paulo Sérgio Nogueira, ex-ministro da Defesa; e Braga Neto, ex-chefe da Casa Civil.

Pela primeira vez na história política brasileira militares golpistas foram submetidos a um inquérito conduzido corretamente pela Polícia Federal. Carlos Fico, professor e historiador

Fico considera, no entanto, que a "pedagogia" não será suficiente para impedir novas tentativas de golpe. Mais eficiente, afirma, seria a mudança do artigo 142 da Constituição brasileira, tirando da lei a "atribuição excessiva de garantia dos poderes constitucionais pelos militares".

Ele afirma que se trata de resquício do Império, quando os militares atuavam com poder de arbitrar conflitos entre os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, e chegou à República, ganhando "poderes excessivos" com a Constituição de 1891.

Desde então os militares atribuem a si o poder de intervir nas crises e administrar conflitos. Mas não acho que a mudança na Constituição tem chances de ocorrer, não com esse Congresso". Carlos Fico, professor e historiador

"Preparados, patriotas e incorruptíveis"

No livro —que será lançado em maio— Carlos Fico desenvolve a tese de que os militares se consideram superiores aos civis e estaria a cargo deles, na avaliação dos próprios, a missão de transformar o Brasil em uma potência.

Essa crença numa superioridade e "desprezo pelos civis", analisa o professor, está na raiz das inúmeras tentativas de golpe militar na história brasileira, e se explica pela formação em escolas e rotina dentro e fora dos quartéis.

Por viajar pelo Brasil - e servirem de apoio para o acesso a diversos pontos do território nacional -, os militares pensam conhecer melhor a realidade do país do que os civis, afirma o professor.

Além disso, há ainda a noção militar de patriotismo e a ideia falsa de que são incorruptíveis. Carlos Fico, professor e historiador

"Militares não devem ocupar cargos"

A "mítica" em torno da superioridade militar, avalia Carlos Fico, foi abalada durante o governo de Jair Bolsonaro.

Militares foram colocados em posições decisivas e se conduziram muito mal. O governo deu transparência ao fato de que militares não devem ocupar os cargos que ocuparam. Carlos Fico, professor e historiador

Como exemplo, ele cita a presença de Eduardo Pazuello (atual deputado federal pelo PL/RJ) à frente do ministério da Saúde durante a pandemia de covid-19. "Foi catastrófico", afirma.

Esse "abalo", afirma o professor, também foi sentido durante o governo militar.

A economia brasileira saiu da ditadura em frangalhos, com alta dívida externa e inflação. A regra geral é que, quando ocupam cargos indevidamente, militares demonstram a incapacidade deles para gerir a coisa pública. Carlos Fico, professor e historiador

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