Entre motéis e navios, Brasil usa criatividade para sediar COP30
Por Manuela Andreoni e Lisandra Paraguassu
BELÉM, (Reuters) - Ativistas ambientais de todo o mundo aguardaram ansiosamente a vez de o Brasil sediar a cúpula climática das Nações Unidas, conhecida como COP30, depois de três anos em que a conferência dos líderes mundiais contra o aquecimento global foi realizada em países sem liberdade para manifestações públicas.
Mas a chamada "COP do Povo" pode não ser tão acolhedora quanto eles esperavam.
Os custos altíssimos de acomodação estão ameaçando o objetivo declarado de inclusão do Brasil, e o governo está correndo para multiplicar os 18 mil leitos disponíveis atualmente na cidade-sede de Belém, enquanto empreendedores investem em adaptar motéis, embarcações e salas de aula para receber os visitantes.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que seu objetivo ao trazer a COP30 para a Amazônia era atrair a atenção do mundo a uma floresta que oferece soluções únicas para a mudança climática, ao armazenar nas árvores o carbono que aquece o planeta, e sofre algumas de suas consequências mais graves, na forma de queimadas e secas.
Embora muitos ativistas que defendem o combate às mudanças climáticas tenham comemorado o foco na floresta, alguns também expressaram receio de que a realização de um evento tão importante possa sobrecarregar uma região frágil e comprometer o sucesso da conferência.
Belém, uma cidade portuária de 1,3 milhão de habitantes à beira da floresta amazônica, está pontilhada por canteiros de obras. O governo brasileiro está investindo cerca de R$6 bilhões em obras.
Mas ainda há muito trabalho a ser feito para acomodar os cerca de 60 mil visitantes esperados.
Duas organizações globais de ativismo climático, que não quiseram ser identificadas, disseram à Reuters que observadores contratados por eles têm encontrado preços para acomodações várias vezes mais altos do que os pagos na conferência do ano passado em Baku, no Azerbaijão. Até mesmo os quartos mais baratos encontrados por eles custam cerca de R$3 mil, e a média é de cerca de R$9 mil por noite.
Lula minimizou a crise dos hotéis em uma visita recente a Belém, e sugeriu que aqueles que não conseguirem encontrar acomodações poderiam dormir "olhando para o céu que vai ser maravilhoso".
No cerne do problema está uma pergunta que cresce à medida que a conferência anual do clima deixa de ser um encontro de líderes mundiais e diplomatas para se tornar um megaevento que mistura ativistas, empresários e autoridades governamentais: Para quem é a cúpula climática da ONU?
"Pode parecer uma coisa mundana, mas na verdade é politicamente muito importante," disse Tasneem Essop, diretora executiva da Climate Action Network. "A habilidade de endereçar problemas de acomodação podem fazer de uma COP um sucesso ou um fracasso."
Grupos da sociedade civil dizem que seu acesso é fundamental para manter a pressão sobre os negociadores, em um momento que líderes globais estão distraídos com guerras e disputas comerciais.
Eles citam, por exemplo, sua influência em avanços como a criação do Fundo de Perdas e Danos em 2022, empurrada pelo grupo das nações mais vulneráveis às mudanças climáticas, para canalizar recursos de nações ricas para lidar com a destruição causada pelas mudanças climáticas em países mais pobres.
"Todos estavam esperando pela COP do Brasil", disse Essop. "Para a sociedade civil, é o momento em que finalmente estaremos em uma COP com espaço para nossas ações".
POUCOS HOTÉIS, MUITA CRIATIVIDADE
O Brasil já mudou as datas de participação dos chefes de Estado na cúpula para a semana anterior ao evento principal, em um esforço para aliviar a pressão sobre a escassa rede hoteleira de Belém. Dois hotéis estão sendo construídos e dois navios de cruzeiro para os participantes serão atracados em um porto próximo.
Mas empresários locais também estão trabalhando para encontrar outras formas criativas de acomodar os visitantes.
Alguns querem reformar embarcações com suítes de alto padrão. Outros têm planos para usar terrenos ociosos para instalar vilas de contêineres. Escolas e igrejas também estão na mira para servir como albergues.
Motéis que normalmente alugam quartos por hora estão sendo anunciados como opções para as delegações.
Yorann Costa, proprietário do Motel Secreto, disse que pode atenuar o "ar mais sensual" de seu estabelecimento, por exemplo removendo cadeiras eróticas.
"Mas um pole desse, por exemplo, não tem como tirar", disse ele, acrescentando que os espelhos no teto também terão que ficar.
Definir o preço certo também foi difícil, disse ele, por causa da especulação feroz em torno do que os visitantes estavam dispostos a pagar.
Valter Correia, secretário extraordinário do Brasil para a COP30, disse que o governo planeja lançar um site oficial de reservas dentro de semanas para organizar o mercado. Ele disse que sua equipe também está procurando maneiras de coibir preços abusivos.
O governo, segundo ele, espera que cerca de 45 mil pessoas participem da COP e planejou novas acomodações suficientes para atender a essa demanda.
A Cúpula dos Povos, um evento paralelo realizado por grupos de ativistas, diz que espera mais 15 mil pessoas. Mas os organizadores dizem que estão planejando ajudar com acomodações, por exemplo, instalando acampamentos.
As autoridades municipais e estaduais também estão incentivando os moradores locais a viajar e alugar suas casas.
Isso desencadeou uma espécie de corrida do ouro em Belém. Anúncios cobrando milhões para alugar apartamentos e casas para o mês da COP se tornaram comuns.
Entrevistas com proprietários, inquilinos e um síndico de prédio revelaram dezenas de casos de pessoas que não puderam renovar seus contratos de aluguel para que os proprietários de seus apartamentos pudessem prepará-los para os visitantes da COP pagando múltiplas vezes o preço normal.
Rafaela Rodrigues, uma empresária que disse não ter conseguido renovar seu contrato aluguel, disse que logo depois encontrou o apartamento em que morava anunciado por um valor várias vezes superior ao que costumava pagar.
"Eu tinha 10 dias para procurar um imóvel, alugar um imóvel, fazer uma mudança e entregar um outro apartamento", disse ela. "Virou, assim, o caos".