"Distraídos venceremos": sonhar acordado pode contribuir para aprendizagem, mostra estudo
A equipe do cientista húngaro Dezs? Németh, do Centro de Pesquisas em Neurociências de Lyon, na França, mostrou que as distrações pontuais, que surgem enquanto estamos ocupados, podem ser úteis na aquisição de certas habilidades, como aprender um novo instrumento ou idioma.
A equipe do cientista húngaro Dezs Németh, do Centro de Pesquisas em Neurociências de Lyon, na França, mostrou que as distrações pontuais, que surgem enquanto estamos ocupados, podem ser úteis na aquisição de certas habilidades, como aprender um novo instrumento ou idioma.
Taíssa Stivanin, da RFI em Paris
Estudos mostram que os seres humanos passam entre 30% e 50% do tempo divagando. Nessas horas, nossa atenção desvia do ambiente e da atividade que estamos realizando e criam "vida própria". "Agora, por exemplo, durante a entrevista, você está falando comigo e me ouvindo, mas ainda assim, provavelmente está pensando em outras coisas que não estão relacionadas com a nossa conversa", explicou o neurocientista Dezs? Németh à RFI Brasil.
Durante a execução de uma tarefa, mesmo se estamos totalmente concentrados, há momentos em que desligamos e nossos pensamentos se desconectam do que estamos fazendo. Os cientistas chamam esses períodos de "vagabundagem mental", ou mind wondering, em inglês.
"Durante cerca de 50 anos, a Ciência mostrou que este estado prejudicava a cognição, porque afetava a atenção", diz o neurocientista. Os estudos mostraram durante décadas, ressalta, que esses momentos de distração poderiam afetar a memória de trabalho, um componente essencial da função executiva no cérebro. Ela é responsável pelo armazenamento temporário da informação pela memória de curto prazo e sua manipulação verbal ou visual.
"Por exemplo, na escola, os alunos devem ouvir o professor está dizendo. Mas se estão no mundo da Lua, isso pode ser visto como um problema, porque não estão prestando atenção. Talvez por essa razão, não poderão executar a tarefa perfeitamente", exemplifica.
Outras pesquisas realizadas ao longo das últimas décadas, diz o cientista húngaro, comprovaram que esses momentos de distração influenciam também na produtividade dos adultos. Elas concluíram que, em excesso, a "vagabundagem mental" poderia até mesmo afetar o PIB e a economia, porque impedem o foco no trabalho, diminuindo a produtividade.
O neurocientista húngaro questionou quais seriam os pontos positivos desses momentos em que nossos pensamentos derivam independentemente da nossa vontade. Para isso, ele e sua equipe recrutaram 135 pessoas para participar de testes online. Durante o exercício, uma imagem aparecia e desaparecia logo em seguida em uma das quatro janelas da tela. Os voluntários tinham que adivinhar em qual dos espaços vagos ela surgiria novamente.
Questionados sobre o foco e o surgimento de pensamentos aleatórios durante a atividade, 117 participantes relataram ter pensado em outros assuntos pelo menos uma vez. A pesquisa mostrou que esses voluntários que divagaram durante o teste tiveram melhores resultados em comparação aos participantes que permaneceram focados, tentando entender, de forma consciente qual seria a sequência de aparecimento do desenho na tela.
Aprendizagem implícita
A conclusão foi que sonhar acordado favorece a chamada aprendizagem implícita e as conexões cerebrais com o ambiente. "Você aprende mesmo sem perceber que está aprendendo alguma coisa. Nosso cérebro sempre está tentando descobrir modelos e estruturando o ambiente", explica o neurocientista.
Segundo o pesquisador, a aprendizagem implícita propiciada por essas distrações pontuais facilita a aquisição de novas habilidades, como tocar um instrumento, praticar um novo esporte ou aprender um idioma.
Agora são necessárias mais pesquisas para determinar até que ponto esses momentos de divagação influenciam o processo de aprendizagem implícita apenas de forma positiva, ou se isso pode ser variável. É preciso diferenciar também, diz Dezs? Németh o que acontece no cérebro durante a aquisição de conhecimentos totalmente novos e o aperfeiçoamento de competências já existentes.
Consolidação da memória
O processo cognitivo que envolve a "vababundagem mental" está conectado ao da consolidação da memória, que acontece durante o sono. Durante o estudo, a equipe do cientista húngaro também notou semelhanças entre esse estado mental e os observados no cérebro enquanto estamos dormindo, que ocorrem no córtex pré-frontal.
"Esse processo cerebral está conectado ao fenônemo que chamamos em Neurociências de replay. Isso significa que, se você está executando uma tarefa em um determinado momento e começa a divagar, seu cérebro inconscientemente vai continuar repetindo essa tarefa, e isso vai ajudar na consolidação da memória", explica o cientista húngaro.
A hipótese da equipe, que ainda precisa ser comprovada, é que o cérebro simula as informações que estão chegando, e as reproduz como se estive rebobinando um filme. Durante esse processo, a aprendizagem provavelmente seria reforçada. É preciso também investigar, diz o pesquisador como as emoções envolvidas nos pensamentos que surgem enquanto estamos ocupados interfereria nesse processo.