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Prefeito da oposição de Istambul é indicado como candidato presidencial, apesar de estar preso

24/03/2025 12h00

O prefeito da oposição da capital Istambul, Ekrem Imamoglu, suspenso do cargo e preso no domingo (23), foi oficialmente indicado como candidato para a próxima eleição presidencial na Turquia, marcada para 2028, após as primárias de seu partido. Apesar dessa indicação, descrita como um sucesso para a oposição, o opositor enfrentará grandes desafios.

Imamoglu, preso por ordem judicial, é o principal opositor do atual chefe de Estado, Recep Tayyip Erdogan, e foi escolhido por mais de 15 milhões de eleitores, em uma votação aberta a todos os eleitores.

A mobilização dos turcos foi tão grande que o processo de votação teve que se estendido por mais de três horas e as cédulas eleitorais tiveram que ser reimpressas.

Na semana passada, o prefeito de Istambul foi levado sob custódia por suspeita de corrupção e terrorismo. No final, apenas a primeira acusação foi confirmada pelo juiz, que ordenou sua detenção.

Em uma mensagem enviada por seus advogados da prisão, Ekrem Imamo?lu denunciou "uma execução sem julgamento". Ele conclamou a "nação a lutar" e disse que não "recuaria um centímetro".

Revolta popular

Desde sua prisão, centenas de milhares de pessoas saíram às ruas em todo o país. O país não via manifestações como essas desde o movimento do Parque Gezi em 2013, segundo a correspondente da RFI em Istambul, Anne Andlauer. Na ocasião, um grupo de ambientalistas começou um protesto pacífico contra a demolição do parque em Istambul, que logo depois se transformou em uma série de manifestações por todo o país contra o governo. 

Os protestos contra a prisão de Ekrem Imamo?lu levaram a uma repressão por parte das autoridades turcas, que proibiram todas as manifestações na maior cidade do país até a noite de quarta-feira (26). Em postagem na rede social X, o ministro do Interior turco, Ali Yerlikaya, informou que "1.133 suspeitos foram presos em conexão com atividades ilegais realizadas entre 19 e 23 de março de 2025".

Pelo menos dez jornalistas, incluindo um fotógrafo da AFP, também foram presos na madrugada desta segunda-feira (24), em suas casas em Istambul e Izmir (oeste), informou o grupo turco de direitos humanos MLSA.

Erdogan: não ceder ao "terror das ruas"

O presidente turco prometeu não ceder ao "terror das ruas". Porém, essa estratégia do uso da força pode se voltar contra ele. "Esse tipo de perseguição por parte do governo torna o prefeito ainda mais popular. Acho que Recep Tayyip Erdogan realmente criou seu rival. Mesmo da prisão, ?mamo?lu pode continuar a ter uma enorme influência sobre os próximos desdobramentos políticos", analisa o cientista político Ahmet Insel.

"Ekrem Imamo?lu está a caminho da prisão, mas também está a caminho da presidência", disse Özgür Özel, líder do Partido Republicano do Povo (CHP) do prefeito de Istambul.

Entre incerteza e "provocações"

Por enquanto, o CHP, sigla da oposição, mantém a prefeitura de Istambul e o governo turco ainda não a colocou sob tutela. A Câmara Municipal de Vereadores, dominada pelo partido, deve se reunir na quarta-feira para nomear um novo prefeito.

A oposição enfrenta a incógnita sobre o destino de Ekrem Imamo?lu, que pode ficar preso por meses ou até anos. O grande desafio dos opositores será manter vivo esse ímpeto de resistência e canalizar a indignação popular para, no momento oportuno, convertê-la em vitória eleitoral, com ou sem Imamoglu à frente. É certo que os atuais detentores do poder na Turquia ainda preparam outros obstáculos para serem impostos a ele no período que antecede as eleições, previstas para acontecer dentro de, no máximo, três anos. 

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Reações internacionais

A situação na Turquia provocou reações da comunidade internacional. "A prisão do prefeito de Istambul, Ekrem ?mamoglu, e de muitas outras figuras importantes, constitui um grave ataque à democracia", lamentou a diplomacia francesa, que já havia condenado sua prisão.

Alemanha, que abriga a maior comunidade turca no exterior, condenou "aqueles que prendem políticos e manifestantes da oposição", denunciando também um "ataque à democracia".

Imamoglu, a "pedra no sapato" de Erdogan

Embora a próxima eleição presidencial não seja realizada até 2028, a decisão de organizar uma primária - a primeira na história do principal partido de oposição - tem como objetivo proteger uma figura política capaz de derrubar o regime de Recep Tayyip Erdogan.

Por que um ataque tão implacável ao popular prefeito de Istambul? O motivo é muito simples. Hoje, se fosse realizada uma eleição presidencial, Ekrem Imamo?lu venceria por uma ampla margem, como mostram as últimas pesquisas. E o governo, que está nas mãos do AKP, o Partido da Justiça e do Desenvolvimento, tem apenas o sistema judiciário, que ele usa a seu favor, para impedi-lo de vencer.

Além disso, o presidente Erdogan não tem o direito constitucional de concorrer a um terceiro mandato. Portanto, ao que parece, Ekrem Imamoglu estaria enfrentando um oponente muito menos popular, o que lhe daria um caminho claro para a vitória.

E caso fosse eleito presidente da Turquia, isso seria, de acordo com o cientista político, ex-professor da Universidade de Paris I e ex-professor da Universidade Galatasaray, em Istambul, Ahmet Insel, um "desastre para o regime de Recep Tayyip Erdogan".

Para o cientista político, se Imamoglu se tornasse presidente, "provavelmente haveria investigações de desvio de dinheiro que seriam abertas em empresas e famílias próximas a Erdogan e suspeitas de desvio de dinheiro ou corrupção. Esse é um perigo real para o regime autocrático de Erdogan".

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