EUA e Rússia encerram conversas sobre proposta de cessar-fogo no Mar Negro
RIAD (Reuters) - Autoridades norte-americanas e russas encerraram nesta segunda-feira um dia de conversações focadas em uma proposta restrita de cessar-fogo entre Kiev e Moscou no mar, parte de um esforço diplomático que Washington espera que ajude a abrir caminho para negociações de paz mais amplas.
Enquanto a reunião estava sendo realizada na Arábia Saudita, onde uma delegação ucraniana estava presente, um ataque de nesta segunda-feira, ferindo pelo menos 88 pessoas.
As conversas, que se concentraram, entre outras questões, na tentativa de chegar a um acordo de cessar-fogo marítimo no Mar Negro, foram retratadas por Washington como um passo no esforço do presidente Donald Trump para acabar com a guerra de três anos.
Mas não houve nenhuma informação imediata sobre se um acordo foi fechado ou se houve progresso.
Uma fonte russa disse à Reuters que as negociações foram concluídas no final da segunda-feira e que uma minuta de declaração conjunta foi enviada a Moscou e Washington para aprovação, com o objetivo das partes de divulgá-la na terça-feira.
O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse mais cedo que nenhum documento seria assinado, informou a agência Tass.
Mais cedo na segunda-feira, o próprio Trump listou outras questões que, segundo ele, estavam na mesa: "Estamos falando de território neste momento. Estamos falando sobre linhas de demarcação, falando sobre energia, propriedade de usinas de energia."
Na semana passada, a Rússia rejeitou uma proposta de Trump para um cessar-fogo completo de 30 dias na Ucrânia e, até o momento, concordou apenas com uma moratória no ataque à infraestrutura de energia.
Enquanto as negociações desta segunda-feira estavam sendo realizadas em Riad, mísseis russos atingiram a cidade de Sumy, no nordeste da Ucrânia. Vários blocos residenciais altos foram danificados, juntamente com uma escola e um hospital, disse o governador regional Volodymyr Artiukh em um vídeo filmado em frente a um incêndio que produzia uma coluna de fumaça.
As crianças da escola estavam em um abrigo no momento, o que evitou um número maior de vítimas, acrescentou.
DECLARAÇÕES VAZIAS
"Moscou fala de paz enquanto realiza ataques brutais em áreas residenciais densamente povoadas nas principais cidades ucranianas", disse o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andrii Sybiha.
"Em vez de fazer declarações vazias sobre a paz, a Rússia deve parar de bombardear nossas cidades e acabar com sua guerra contra os civis."
As conversas na Arábia Saudita seguem as ligações telefônicas da semana passada entre Trump e os dois presidentes, Volodymyr Zelenskiy, da Ucrânia, e Vladimir Putin, da Rússia. Autoridades ucranianas se encontraram com os norte-americanos na Arábia Saudita no domingo.
Trump, que reduziu o apoio diplomático dos EUA à Ucrânia e mudou publicamente para uma posição muito menos crítica em relação à Rússia do que a de seu antecessor Joe Biden, diz que pretende pôr um fim rápido à guerra.
Mas, embora a Ucrânia tenha concordado anteriormente com a proposta de Trump para um cessar-fogo, Putin concordou apenas em interromper os ataques a alvos energéticos. Kiev, então, disse que também aceitaria uma moratória nos ataques a alvos de energia se um documento formal fosse assinado.
Mesmo com o desenrolar das negociações, Moscou lançou três noites seguidas de ataques aéreos contra Kiev, enchendo o ar sobre a capital com fogo antiaéreo.
A Rússia, por sua vez, afirmou ter derrubado 227 drones ucranianos nas últimas 24 horas. Os bombeiros da região de Krasnodar, no sul do país, também lutavam pelo quinto dia para apagar um incêndio em um depósito de petróleo atingido por um ataque de drones ucranianos na semana passada.
ACORDO MARÍTIMO
A Casa Branca diz que o objetivo inicial das conversações sauditas era garantir uma trégua marítima no Mar Negro, permitindo o livre fluxo de navios.
Mas as batalhas marítimas têm sido uma faceta comparativamente limitada da guerra desde 2023, depois que os ataques ucranianos levaram Moscou a mover sua marinha para longe das águas contestadas, possibilitando que a Ucrânia reabrisse os portos e retomasse as exportações em volumes próximos aos do pré-guerra.
"Isso tem a ver principalmente com a segurança da navegação", disse o porta-voz do Kremlin, Peskov. Ele disse que um acordo anterior apoiado pela ONU sobre a navegação no Mar Negro não conseguiu atender a algumas das exigências de Moscou.
Uma fonte informada sobre o planejamento das negociações na Arábia Saudita disse que o lado norte-americano foi liderado por Andrew Peek, diretor sênior do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, e Michael Anton, funcionário sênior do Departamento de Estado.
A Rússia foi representada por Grigory Karasin, um ex-diplomata que agora é presidente do Comitê de Relações Exteriores da câmara alta da Rússia.
Segundo a agência de notícias Interfax, Karasin disse durante um intervalo nas conversações nesta segunda-feira que elas estavam progredindo "criativamente" e que os dois lados haviam discutido questões consideradas "irritantes" nos laços bilaterais.
Trump expressou ampla satisfação com o andamento das conversas e elogiou o engajamento de Putin.
Mas as principais potências europeias duvidam que Putin esteja pronto para fazer concessões reais ou se manterá o que consideram suas exigências maximalistas, que não parecem ter mudado desde que ele enviou tropas para a Ucrânia em 2022.
(Reportagem de Dmitry Antonov em Moscou, Steve Holland em Washington, Pesha Magid em Riad e Pavel Polityuk e Christian Lowe em Kiev; reportagem adicional de Phil Stewart e Don Durfee)