Ela usava implante e acabou fazendo aborto: "Achei que estava segura"
Carolina*, 33 anos, nunca quis ser mãe. Ela decidiu usar implante hormonal subcutâneo aos 17 anos como contraceptivo, considerado um dos métodos com maior eficácia para evitar a gravidez. Aos 32 anos, acreditando ter um implante em seu corpo, ela descobriu uma gravidez inesperada, se viu diante de uma decisão difícil e partiu em busca de respostas.
No relato abaixo, ela conta todo o processo pelo qual passou e que ainda reverbera em sua vida:
"Como várias meninas ao meu redor, eu comecei a tomar pílula com cerca de 14 anos. Meu ciclo era irregular, eu tinha muito fluxo por vários dias, espinhas, variação de humor, de peso, cólica... A justificativa era um diagnóstico de ovário policístico, mas colocar a TPM 'sob controle' era também um ótimo motivo para tomar hormônios. Além disso - o que ninguém falou, mas devia estar na cabeça de todos - em pouco tempo eu teria uma vida sexual ativa, então era mais seguro já me acostumar com essa nova rotina.
Aos 17 anos decidi trocar a pílula oral por um implante hormonal subcutâneo.
Um pequeno pedaço de plástico, mais ou menos da espessura de uma carga de caneta esferográfica, que prometia mais segurança contra uma gravidez indesejada e, meu grande sonho, interrompia a menstruação."

Esses três primeiros eu coloquei com a mesma ginecologista. Mas ela parou de atender convênios médicos e, quando chegou a hora de colocar o quarto, em 2015, eu procurei um médico novo.

Dessa vez, quando voltei ao médico, disse para ele que estava achando estranho que não conseguia sentir o implante. Ele me garantiu que estava tudo certo e não pediu nenhum exame para confirmar. Disse que o implante tinha apenas sido colocado mais fundo do que o normal.
Na época eu estava solteira. Nos anos seguintes, eu tive algumas relações casuais, mas sempre de camisinha. Em 2017 comecei a namorar, e o rapaz sugeriu que deixássemos de usar camisinha, já que estávamos em uma relação estável. Eu topei, fizemos exames de sangue e prosseguimos nossa vida sexual sem camisinha.
Cerca de dois meses depois eu fui ao médico fazer meu check-up anual, que inclui algumas ultrassonografias, como a de abdome total. Durante o exame, a médica disse que tinha um 'conteúdo' no meu útero. Mas, como eu usava implante, ela disse que devia ser só um acúmulo de líquido, o que é normal, e sugeriu que eu fizesse um teste de gravidez só para excluir essa possibilidade.
Fiz o teste bem tranquila. Mas senti o mundo desabar quando veio o resultado: positivo"
Sozinha em casa, sentada no chão do banheiro, um bilhão de coisas passavam pela minha cabeça. Uma delas era que eu não estava nesse relacionamento tempo suficiente para decidir formar uma família. E a outra, que eu perderia minha chance de ser feliz se virasse mãe.

Antes dos exames e do teste que atestaram a gravidez, eu não tinha notado nenhum sintoma. Só depois comecei a ligar os pontos: eu tinha uma cólica leve, mas quase todo dia, muito sono o tempo inteiro e não estava conseguindo tomar café puro, um hábito antigo que nunca abandonei.
Minha primeira reação foi falar com meu namorado. Contei o que tinha acontecido, que o teste tinha dado positivo e que precisávamos conversar. Antes de falar qualquer coisa perguntei para ele: "Se a decisão fosse só sua, o que você faria?". Ele respondeu que não queria ser pai, mas aceitaria se eu "quisesse muito" seguir adiante. Assim, decidimos fazer um aborto.
Consegui um contato médico com uma amiga, agendei uma consulta e, depois dela, marquei a data do procedimento."
As duas semanas até realização do aborto foram estressantes, mas eu estava sob controle.
Aqui preciso parar e fazer uma observação: eu ainda não tinha notado, mas estava em um relacionamento abusivo. Durante os quatro meses em que estávamos juntos, meu namorado, 10 anos mais velho que eu, conseguia me manipular e me fazer sentir sempre culpada, de forma que qualquer assunto do qual discordássemos acabava virando uma briga. E a briga acabava com ele me deixando dias 'na geladeira' e eu me desculpando. Sempre.

O procedimento em si foi a parte mais simples do processo. Fui muito bem atendida. A enfermeira foi carinhosa comigo enquanto a anestesia me apagou completamente. Em cerca de 15 minutos eu estava de volta ao quarto. Tive um sangramento e cólica leves no dia seguinte, mas tudo muito tranquilo. Meu namorado foi comigo na consulta e me acompanhou no dia do procedimento. Dividimos o valor meio a meio, R$ 5 mil em dinheiro, e ele ficou comigo no dia seguinte. Ele dizia que estaria do meu lado 'até o fim', mas claramente o 'problema' desapareceu para ele na hora em que eu saí da clínica. Para mim foi quando a pior parte começou.
Depois do aborto, eu comecei a ir a vários médicos tentando descobrir por que eu tinha engravidado, uma vez que usava implante, um método com eficácia de 99,97%. A primeira suspeita foi interação medicamentosa com meus remédios psiquiátricos, mas, depois de alguns exames, descobri que não era isso. Foram vários meses ligando para o fabricante, para o médico que colocou, para a médica que colocou os anteriores. Isso também foi muito solitário. Os médicos não se importavam e meu namorado também não. Todo o processo foi difícil e cheio de má vontade, tomava meu tempo e invadia meu corpo com vários exames.
Só muito tempo depois eu descobri que, na verdade, esse quarto implante nunca foi colocado.
Até hoje não sei se foi um erro médico ou do laboratório, mas definitivamente não tem nenhum implante em mim desde 2015."
Nesse meio tempo eu comecei a ter pesadelos, insônia, variações bruscas de apetite e entrei numa das piores crises depressivas da minha vida. Então, menos de dois meses depois do aborto, meu namorado terminou comigo. Ele disse que não curtia 'bad trip' dos outros. Que nosso namoro era nota 11, mas agora estava só nove e que a minha tristeza tirava a vontade dele de estar comigo.

Acontece que dos 14 anos até os 30 o meu corpo e o meu ciclo mudaram muito e eu nunca soube porque os hormônios dos anticoncepcionais mascaravam essa mudança. Hoje eu menstruo muito pouco e por um ou dois dias só e quase não tenho TPM. Por isso confundi essa menstruação com os escapes normais para quem usa implante. Não vou defender que todas as mulheres abandonem as pílulas, mas acabei descobrindo - na marra - que qualquer solução sintética funciona muito melhor aliada ao autoconhecimento.
Hoje não tomo hormônio nenhum. Uso camisinha sempre e sigo o método sintotermal (explicação abaixo) para conhecer meu ciclo. Por ora é o melhor cuidado que posso ter comigo, e isso melhorou muito a forma como eu lido com a minha história."
Palavra de médico: "Nenhum método contraceptivo é 100% seguro"
Segundo o médico ginecologista e obstetra Paulo Noronha, especialista em medicina fetal, qualquer método de contracepção deve ser explicado para a paciente sobre seus riscos e benefícios. "Explicar sobre todos eles é obrigação do profissional para que a paciente possa escolher o método que melhor se encaixa para ela. E isso se chama direito reprodutivo", diz Noronha.
Sobre o implante hormonal subcutâneo, o médico afirma que esse é um dos métodos contraceptivos mais eficazes que existem: "Sua eficácia é tão boa quanto a da laqueadura, por exemplo, com a diferença de que ele não é um método cirúrgico invasivo. Para exemplificar, ele tem uma falha no primeiro ano de uso de uma gravidez em cada 100 mulheres, enquanto a pílula pode ter uma falha de quatro a sete gravidezes no primeiro ano de uso. O que se espera é que o implante não falhe, mas nenhum método anticoncepcional é 100% seguro".

Quanto ao método sintotermal de contracepção, citado por Carolina, Noronha explica que ele funciona com base nas alterações das secreções vaginais e da temperatura corporal decorrentes das modificações hormonais do ciclo menstrual. "A presença de uma secreção vaginal elástica é um indicador do início da fase fértil. E o aumento da temperatura corporal basal significa o fim do período fértil", esclarece o médico.
Noronha afirma ainda que a utilização do método sintotermal de contracepção precisa de disciplina para observar as alterações das secreções vaginais e da temperatura corporal todos os dias. "Como é um método que a mulher precisa aprender a usar corretamente e evitar relações sexuais desprotegidas nos dias férteis, ele apresenta uma alta taxa de falha. Alguns estudos a respeito indicam gravidezes de 13 a 20 mulheres em cada 100 que utilizam esse método", alerta o médico.
*O nome foi mudado para preservar a identidade da personagem
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