Topo
Esporte

Foi descoberto correndo descalço e vai iniciar nova volta 'social' ao mundo

Ultramaratonista Alexandre Sartorato vai iniciar segundo volta ao mundo - Arquivo pessoal
Ultramaratonista Alexandre Sartorato vai iniciar segundo volta ao mundo Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Do UOL, no Rio de Janeiro (RJ)

31/03/2025 12h00

Alexandre Sartorato começou a correr para ganhar resistência para o futsal, esporte que praticava na juventude para complementar a renda. "Quem conseguia ficar mais tempo em quadra, acabava sendo mais valorizado", justifica. Eram três turnos de duas horas na pista do Centro Poliesportivo Professor Roberto Dick, em Cubatão, fora os treinos de futsal e os compromissos de trabalho.

Tal rotina durou até ser observado por um ex-saltador com vara que dava aulas de atletismo no local. "Ele falou: 'Cara, você é ultramaratonista. Eu não tinha a mínima noção do que era isso, mas acreditei nele". Sartorato, então, começou a estudar a modalidade e se preparar. Das Pirâmides de Giza, no Egito, o brasileiro inicia hoje a segunda volta ao mundo, atravessando os cinco continentes.

Eu não tinha muita coisa, corria descalço. A primeira prova que fiz foi com tênis emprestado da Juliana, que é atleta e esposa do Marilson Gomes. Eles são amigos de longa data. E a Ju calçava menos que eu (risos). O começo foi no sufoco mesmo

O trecho inicial da aventura será em direção a Alexandria. A ideia é percorrer mais de 80Km, ou seja, cerca de duas maratonas diariamente. O roteiro inicial conta com 30 países, dentre eles: Grécia, Macedônia, Albânia, Kosovo, Áustria, Luxemburgo, Uruguai, Argentina, Japão, Nova Zelândia, Arábia Saudita e Jordânia. "Mas estudei cerca de 50 países, porque você pode ter situações de guerra, alguma endemia e ter de mudar o trajeto".

Sartorato buscou se preparar para as mais diferentes temperaturas que pode encarar. Um dos locais de treino, por exemplo, foi Urupema, em Santa Catarina, apontada como a cidade mais fria do país. "Treinei por um tempo em uma região semidesértica no Egito e também na Cordilheira dos Andes, que tem a questão de altitude"

Causas sociais

O ultramaratonista aproveita a visibilidade durante as provas para divulgar causas sociais. A motivação para isso vem da própria história de vida. De origem humilde, Sartorato não esquece das dificuldades que passou e se emociona ao contar.

Ultramaratonista Alexandre Sartorato - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ultramaratonista Alexandre Sartorato
Imagem: Arquivo pessoal

"Sempre entendi que estou em uma missão e tento fazer o meu melhor. Lembro da minha mãe deixar de comer para que eu e meu irmão pudéssemos jantar. Ela dizia que estava sem fome. Quando morei em Mogi das Cruzes, houve uma obra que subiu a rua da frente e os vizinhos, como tinham mais recursos, subiram o terreno também. A nossa casa ficou tipo em uma vala e tinha buracos no telhado. Lembro da minha mãe, que fazia bolo para vender, com água quase na cintura, guarda-chuva em uma mão e batendo glacê com a outra", disse.

Eu sei de onde eu vim. Eu não ajudo uma causa social porque li em um livro ou vi em um filme e achei legal. Eu ajudo porque sou fruto disso. Sempre que tenho a oportunidade de ir a escolas falar com os jovens, ressalto a possibilidade deles realizarem sonhos. Eles podem! Eu vim de um lugar parecido com o deles, de dificuldade. Nasci em um lugar que já foi conhecida como 'Vale da Morte' Alexandre Sartorato

Cubatão ganhou o apelido devido aos altos níveis de poluição na década de 80. A cidade já foi considerada a mais poluída do mundo, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

Sartorato já correu com camisas da Aldeias Infantis SOS, Médico sem Fronteiras, Natal sem Fome e do Movimento Amanhã sem Câncer, do Instituto Nacional de Câncer. "Perdi familiares e o Índio, o Antônio Quitério, que me descobriu, para essa doença. Sei das dificuldades".

No Egito, um carregamento de 70 camisas já aguardava Alexandre. "Cada dia corro com uma camiseta porque, ao final do dia, faço alguma ação com ela para arrecadar fundos para entidades, apoiadores"

A primeira volta ao mundo

No começo da década de 2000, Alexandre Sartorato foi do Oiapoque, no Amapá, ao Chuí, no Rio Grande do Sul, pontos extremos do Brasil. Ao concluir, avisou que o objetivo seguinte seria a volta ao mundo.

Ela aconteceu em 2007, tendo como ponto partida o Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, que concorria na eleição das novas maravilhas do Mundo — e foi eleito ao lado da Grande Muralha da China, Petra, na Jordânia, Machu Picchu, no Peru, Pirâmide Chichén Itzá, no México, Coliseu, de Roma, na Itália, e Taj Mahal, na Índia.

"Esta primeira volta foi na força do corpo mesmo, dedicação. Psicologicamente, estava muito abalado, chorava muito. Em 2005 tinha perdido a minha mãe, um grande exemplo de vida, em um trágico acidente entre Anchieta e a Imigrantes. Uma pessoa que saiu de casa boa e voltou em um caixão lacrado. Mas, apesar de tudo, consegui concluir. Recebi muito apoio pelo caminho e isso ajudou"

Pouco após retornar ao Brasil, Sartorato parou a carreira de ultramaratonista. "Meu pai, por conta da morte da minha mãe, estava em depressão e chegou ao estado de desenvolver uma atrofia cerebral. Parei para cuidar dele. Foi, talvez, o maior desafio que enfrentei na vida Ele faleceu em 2012".

Vai virar filme

Sartorato se afastou das provas e grandes desafios e a corrida passou a ser apenas um refúgio casual. Em 2019, porém, voltou. "Comecei a estudar um pouco como que estava a realidade no mundo e das corridas e voltei a treinar. Nunca é do zero porque acabamos criando uma memória esportiva. Então, já sabia um pouco o caminho das pedras. E, em 2020, voltei aos treinos de maior período".

Ultramaratonista Alexandre Sartorato em treinamento para a segunda volta ao mundo - Arquivo pessoal - Arquivo pessoal
Ultramaratonista Alexandre Sartorato em treinamento para a segunda volta ao mundo
Imagem: Arquivo pessoal

Ele, que é servidor público desde 1991, ampliou a preparação nos últimos cinco anos, e passou a fazer treinos diários em duas duas sessões, uma pela manhã: das 4 h às 8 h, e outra à noite, das 18h30 até 22h30. No último ano, passou a viver sozinho e, em alguns períodos, até dormiu em barraca. "Um dia vai ter um hotel, vai ter uma pousada, mas o mundo não é isso. Vai ter dia que vou ter de parar e dormir onde der. Eu estou indo para estabelecer uma marca, quero fazer duas, três maratonas por dia".

Ele projeta o uso, por exemplo, de 50 pares de tênis ao longo de toda a jornada, alguns já enviados a pontos de apoio ao redor do mundo. No Egito, desembarcou com oito pares. "Estou ajudando em um projeto de tênis em que um percentual é feito de material reciclado. A ideia é que acabe essa volta ao mundo com algo mais encaminhado de um tênis que seja viável [financeiramente] para a maioria das pessoas".

O ultramaratonista vai ser acompanhado por uma equipe de profissionais que conta com apoio médico, um produtor cinematográfico e um cinegrafista. "Uma volta ao mundo custa alguns milhões, também por causa dessa estrutura. E, agora, ainda estamos produzindo um documentário sobre a trajetória toda, não apenas sobre a volta ao mundo. Não sei o que vai acontecer, mas quero deixar esse registro".

Esporte

publicidade